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Trecho do livro 'A boca do muro', de Bruno Honorato

FARINHA TUDO DE NOVO!   Atravessaram a avenida, entraram pelo beco, desembocaram na paralela. De ideia com a parede. BOMBA CITY * ARRASTÃO * DINHO * NINJA *OS BICHO VIVO * ABSTRATOS * TCHENTCHO * KRELLOS. Seguiram. Passaram pela Quadrinha, pela Rua do Córrego e tomaram a Rua dos Prédios. VENENO * BEKOS * INSUPORTÁVEIS * MALAS * PIAUÍ * VIKINGS * KBEÇA *BAGUNCEIROS * TERRÍVEIS. Casa sem reboco, asfalto rachado, mato saindo pela brecha do concreto, muito bar, muita igreja. A Rua dos Prédios era uma ladeira, a subida esquentava e tirava o fôlego. Lá embaixo, o fluxo. Lá na frente, a ponta de um outro morro. O pancadão entre os dois, num vale. E na meiota do vale, a boca, que patrocinava o evento que nem marca de cerveja em festival de rock. Desceram. Muito carro parado na calçada, alguns rebaixados. Moto para lá e para cá. De mão em mão, uísque, energético, cerveja, lança, baseado. Comes-e-bebes nos dois lados, em barracas. Não havia ordem aparente. O cheiro do espetinho se mistur...

Te Leio

Cada curva de teu impecável corpo é capaz de escrever única poesia: dos teus belos cachos, até teu pescoço; descendo teu peito – doce maresia. Tudo em ti é capaz de poetisar . Tu és rima, métrica, balanço e ritmo em corpo só. Tu és um apaixonar em olhar e toques únicos e íntimos. Tu és poema que não posso escrever por não ter nessa nossa realidade palavras capazes de te descrever nem de romanciar quem és de verdade. Sofro quando te olho e fogem palavras p’ra te escrever único e singelo verso. Sofro como se afiadas navalhas cortassem fora as estrelas do universo. Mas isso é tudo que tu és: uma história inexplicável; um mistério inigualável  escondido embaixo dos meus pés. Esse poema que teu corpo me conta é plausível de leitura à olho nu. Nua é, então, livro de ponta a ponta que, com sua cativante paixão, eu vejo. E é por isso que contigo tanto te olho: quanto mais atento olho, mais te leio. -Lopes, Carlos.

Parnahyba

É doce - doce Parnahyba. De pele escura cruzando o mangue à encontrar com a maresia. Banha-se como Cleópatra no Nilo até o entardecer do dia. Como é bela; é bela Parnahyba. Brava Parnahyba! Poderosa guerreira. Lidera uma nação, um tribo inteira. Domina os elementos e dobra a natureza. Grita alto, Parnahyba é guerreira. Brilha a Lua. Parnahyba, a beleza tua brilha em meus olhos negros. Dança feliz e nua ao sabor do fogo. Oh Lua... Tua beleza desceu e tomou forma escura. É a força da carnaúba que resplandece em ti, são teus lagos em meio às dunas e teu doce de buriti. São os lopes, os correias, que não tenho por aqui. Oh Parnahyba, doce amada, és a mais bela que já vi. -LOPES, Carlos.

À beira do lago

Todo dia, havia nem o sol nascido, já me achava de pé em meio ao quarto ainda escuro da noite, iluminado somente por um feixe azul prateado da lua que entrava pela janela e parava na parede oposta. Os quadros com fotos antigas reluziam o brilho da lua formando um concerto particular de luzes. Caminhava lentamente pelo chão de madeira até a cozinha onde acendia o fogão à lenha para fazer o café; o cômodo se enchia de um laranja forte e quente que aquecia a água, fazendo borbulhar. O cheiro perfumado do café inundava meu nariz enquanto o bebia. O céu permanecia um manto negro repleto de minúsculas gotas brancas que brilhavam mais perto ou mais longe. Após o café, ia até a frente da casa; em uma longa caixa procurava uma vara de bambu com um fio e anzol na ponta. Pegava um balde branco, sujo do tempo, cheio de terra e minhocas, cruzava o portão de madeira e seguia pela rua de terra com um lampião em uma das mãos. Agora a lua já desaparecia e o céu era um contínuo azul escuro. Sob ...

Isabella

Isabella, garota mais boba, minha doce donzela. De longos cabelos, tão baixinha e magrela. De longe a vejo coração dispara. Você sorri e me dá uma piscadela. Se meu dia está muito pálido logo você me alegra. Se aceitar a este convite gostaria de levar-te a uma capela num lugar bem alto ou na beira da praia, mas a mais bela. Isso fica a seu critério, não vou influenciá-la. Mas se aceitar minha vida vai ficar tão colorida quanto tinta aquarela. -escrito em 2015, abril. LOPES, Carlos.