À beira do lago



Todo dia, havia nem o sol nascido, já me achava de pé em meio ao quarto ainda escuro da noite, iluminado somente por um feixe azul prateado da lua que entrava pela janela e parava na parede oposta. Os quadros com fotos antigas reluziam o brilho da lua formando um concerto particular de luzes. Caminhava lentamente pelo chão de madeira até a cozinha onde acendia o fogão à lenha para fazer o café; o cômodo se enchia de um laranja forte e quente que aquecia a água, fazendo borbulhar. O cheiro perfumado do café inundava meu nariz enquanto o bebia. O céu permanecia um manto negro repleto de minúsculas gotas brancas que brilhavam mais perto ou mais longe. Após o café, ia até a frente da casa; em uma longa caixa procurava uma vara de bambu com um fio e anzol na ponta. Pegava um balde branco, sujo do tempo, cheio de terra e minhocas, cruzava o portão de madeira e seguia pela rua de terra com um lampião em uma das mãos.


Agora a lua já desaparecia e o céu era um contínuo azul escuro. Sob ele a rua de terra vermelha serpenteava por campos escuros indescritíveis à luz laranja do lampião. Vez ou outra o vento balançava as plantas nos campos e um perfume floral se erguia no ar; para mim mesmo exclamava num sussurro: - “Talvez rosas; quem sabe violetas?”. Durante o caminho alguns trechos erguiam árvores que formavam colossos negros na escuridão, delas ouvia o farfalhar de morcegos que voavam irregularmente sobre minha cabeça. Em certo ponto a rua se tornava uma pequena trilha que subia entre árvores pouco maiores que eu, até uma planície onde brotava do chão uma árvore de tronco vultoso, longos galhos e folhas espessas. Sentava embaixo de sua copa e olhava para o espelho que se estendia pelos trinta metros à minha frente. Pegava uma minhoca no balde, com cuidado a empalava no anzol e a arremessava no espelho que tremia em dezenas de ondas uniformes. Dali, sentado, olhava o horizonte, ainda azul escuro, e aguardava pacientemente.


Há seis anos repetia essa mesma rotina, todos os dias, sem falta: acordava antes do sol, tomava um perfumado café, pegava minhas minhocas e a mesma vara de bambu, que à esse ponto já estava seca, e andava devagar pela rua de terra vermelha até a planície, onde sentava com impassível paciência. Observava a pequena boia branca flutuar no espelho do céu, esperando-a afundar. Enquanto não afundava olhava o céu escuro cair até o horizonte em algumas pequenas montanhas que não sabia onde iam dar. Por vezes, cochilava por rápidos minutos onde, em meus sonhos, a via chegar; me beijava por inteiro deslizando seu corpo sobre o meu. Acordava sorridente e olhava ao horizonte; lá ela vinha deslizando pelas brumas; sentia seu calor se erguer pela terra. Antes mesmo do sol aparecer o céu se enchia com o lusco-fusco de sua beleza. Nos primeiros segundos se erguia por detrás das montanhas um tom laranja que ia misturando-se ao céu noturno, tomado por um roxo gótico. Quase imperceptivelmente o degradê subia e o amarelo surgia junto ao sol. Esse era o momento tão aguardado, tão sonhado. Finalmente ela estava ali - aurora -, tão linda e bela, seu calor flutuava até mim, seus raios de luz coloriam a paisagem de verde, marrom, vermelho, azul, sentia sua calma e pureza, era como se falasse e eu ouvia: - “Bom dia! Bom dia! Bom dia!”. Respondia, então, sorrindo de lágrimas nos olhos: - “Bom dia, doce Aurora! Graças a você é dia!”. Me tocava o rosto com carinho como se me amasse e, enfim, o dia nascia.


Com o dia já nascido o céu tornava-se um mar azul uniforme. A aurora já havia desaparecido e só me restava sua imagem em minha memória. Em algum momento um peixe resolvia fisgar minha isca fazendo o espelho d’água se agitar freneticamente. Tirava então o peixe da água sem muita dificuldade. Me punha de pé e olhava novamente para as montanhas, agora já coloridas de verde em vários tons, com os últimos resquícios da bruma da manhã e torcia para que pudesse rever aquele espetáculo, que durava apenas alguns instantes, novamente. Dava as costas para o lago e descia pela trilha até tornar-se novamente a rua pela qual voltava para casa. Havia árvores e plantas pelo caminho, mas nada que eu pudesse prestar atenção, ainda pensava naquela bela aurora. Ouvia alguns sons ao longe e recordo de me questionar algumas vezes sobre o que seriam. Sentia o vento me tocar quando chegava à um campo e cheirava um aroma que não sabia distinguir o que podia ser. Seguia até minha casa sem muita atenção ao caminho - continuava sempre pensando em suas cores e em seu calor ao tocar meu rosto. Ao chegar guardava a vara e o balde de minhocas, entrava em casa e comia o peixe que assava com alguns legumes. Passava o dia com alguns afazeres esperando anoitecer para que pudesse dormir novamente. Em nenhum momento da minha rotina solitária eu parava de pensar naquele único minuto em que eu recebia os raios primeiros do dia só para mim. Me sentia sempre muito único em poder ser o primeiro a vê-la.


Outra noite chegava e outra vez eu dormia pronto para levantar antes do sol. Assim se passaram dias e mais dias. Em algum momento daquele ano acabei me perdendo na contagem dos dias e nunca mais recuperei. Já não sabia se era primavera ou verão, mas naquele dia acordei ainda mais cedo que de costume. Mesmo assim segui a rotina que já ocupava um quarto de minha vida. O café seguia perfumado; a lenha me aquecia na cozinha fria; a vara secava cada dia mais; o lampião enferrujava a cada dia mais. Segui meu caminho de sempre com calma e sono como fazia todos os dias, porém, senti falta do odor floral que o vento trazia. No meio das grandes árvores não ouvia o farfalhar de nada. Não me importei com aquilo, afinal o mais importante era chegar ao lago para esperar a aurora. Subi a trilha ansioso e fiz o restante como sempre; não cochilei, pois queria olhar bem o céu. Tamanha era minha ansiedade que não havia notado nos primeiros quinze minutos desde minha chegada algo completamente fora do habitual: trinta metros à minha frente, pequena, agachada à beira do lago me olhava - não sei dizer quem estava mais assustado, se eu ou ela. Ergueu-se lentamente e não demorou a se aproximar. Conforme ela chegava mais perto o céu clareava - primeiro laranja e roxo-, reparei que usava um vestido branco de seda que rodeava seu corpo caindo em seus pés, tinha a pele clara como dia e cabelos curtos levemente cacheados. Chegou ainda mais perto e o céu amarelou com o sol e ganhou o azul do dia; nesse momento pude ver que o vestido tinha uma leve transparência. Seus seios voluptuosos não eram nenhum segredo, muito menos sua vergonha. Em seu rosto, olhos amendoados e castanhos acima de um nariz suave e delicadamente redondo; sua boca com lábios não muito grossos a fazia o ser mais lindo já visto por mim, mesmo com a estranha falta de sobrancelhas. Tinha uma expressão angelical enquanto chegava cada vez mais perto. Pela primeira vez em anos a aurora havia passado sem meu olhar, que agora focava naquela moça parada em minha frente. Exalava um perfume que eu não conseguia identificar - parecia uma mistura de todas as flores desse mundo que se organizavam em um concerto regido com muito cuidado e precisão. Abaixou-se como antes, bem ao meu lado: - “Bom dia! Bom dia! Bom dia!”, eu a ouvi dizer tão lentamente com uma voz macia e serena. Minha boca não mexia e meus olhos ainda estavam encantados quando balbuciei, automaticamente, as únicas palavras que havia usado em anos: - “Bom dia, Aurora!”.


O lago tremia com a agitação da boia afundando e surgindo novamente; isso fazia com que os raios de sol refletissem em meu rosto, tornando mais difícil enxergar aquela figura que parecia ter seu próprio brilho. Passaram-se anos em questão de segundos enquanto me olhava muito menos curiosa do que eu. Trouxe sua mão até meu rosto e com um toque leve e quente fez uma rápida carícia; então ergueu-se de pé novamente, virou-se e voltou até a outra margem do lago, onde o sol e seu reflexo ofuscaram minha visão. Ainda me lembro de vê-la desaparecer na luz, mas não me lembro ao certo de para onde ela foi. Assustado, me questionava: - “Quem é ela? De onde veio? Para onde foi?”. Passei algumas horas ali, sentado, tentando compreender aquele contato quando caminhei devagar até o lugar onde havia a visto por último. Não passava da metade do dia, então a grama ainda estava um pouco úmida. Do outro lado do lago havia uma pequena colina que descia e dava de cara com pequenas árvores muito emaranhadas, fazendo quase impossível o acesso sem alguma ferramenta. Me virei num salto e corri - corri como nunca. Desci a trilha, rasguei a rua e invadi minha casa, onde me tranquei. Sentei à mesa; o coração doía no peito, tamanha a pressão que seus batimentos causava; os olhos fixos na lenha ardendo em brasa piscaram - piscaram - piscaram e se encerraram.


Acordei em meio ao breu. Não sabia se era começo ou final de noite, mas acendi o fogão e cozinhei alguns legumes; comi e fui me deitar. Havia decidido não subir à planície na próxima manhã. Assisti de minha janela o sol nascer. Evitei pensar no ocorrido e até mesmo voltar à planície por alguns dias, mas era inevitável. Mais uma vez subi a rua de terra vermelha, fiz a trilha e à beira do lago estava novamente. A vara de pescar e o balde de iscas continuavam ali intocados. O lampião iluminava muito mal o lugar, mas a luz das estrelas me ajudava a enxergar toda a extensão do lago: não havia ninguém ali. Me questionei, por alguns poucos instantes, sobre o que vi enquanto colocava outra minhoca no anzol e a lançava na água. Não demorou muito para que meus questionamentos sobre minha saúde mental fossem diluídos; o céu começou a clarear e o sol começou a surgir quando, por um momento, me distraí do horizonte por conta de um peixe que havia fisgado. Ao voltar os olhos para as montanhas, lá estava ela vindo em minha direção. A aparência era a mesma; ela caminhava até mim e o dia ia nascendo; quanto mais o sol subia no céu, mais clareava aquele corpo lindo, aqueles olhos hipnotizantes. Sentou-se ao meu lado: - “Bom dia”, ela falava com tanta calma que eu ouvia sua voz ecoar em meus ouvidos. Muito bruscamente perguntei quem ela era, de onde vinha e o que queria, mas só recebi uma resposta.


. . .

 

Beatriz era uma companhia muito peculiar: me perguntava sobre diversas coisas, mas raramente respondia minhas perguntas - quando o fazia era sempre muito subjetiva. Ela aparecia enquanto o sol nascia e ia embora em algum momento da manhã. Passamos vários dias nos encontrando debaixo daquela árvore e conversando sobre diversos assuntos. Ela me perguntava sobre comida, sobre lugares para caminhar, sobre minha casa e sobre pesca. Cada dia uma conversa com um tema diferente. Eu dizia pra ela sobre a lua que iluminava meu quarto, o café fresco que tomava todas as manhãs, a horta que cultivava atrás de minha casa. Cheguei a convidá-la para me visitar, mas ela ia embora e eu voltava sozinho. Descia toda a trilha até a rua e vinha passeando com um sorriso embriagado no rosto, caminhando devagar e ouvindo alguns barulhos sobre minha cabeça - os quais identifiquei como pequenos sabiás que faziam seus ninhos nas árvores à beira da estrada. Numa dessas voltas para casa parei em um campo florido com inúmeras rosas, violetas e margaridas multicoloridas. O vento as fazia balançar e soltar no ar o seu perfume. Era como se Beatriz estivesse ali e fizesse carícias em meu nariz. Peguei algumas flores para levá-la na manhã seguinte. Passei a preparar diversas comidas para ela experimentar: sopa de legumes, peixe grelhado, escondidinho, saladas. Ela adorava experimentar cada prato que eu levava. Me agradecia com um sorriso que mais parecia uma pintura de tão belo e eu ia me apaixonando todos os dias por ela. 

    Um dia levei suco de goiaba e geleias para comermos com algumas torradas. Ela certamente adorou, pois mal conseguia formar as perguntas com tanta comida na boca. Finalmente terminou de mastigar. Desde que a havia conhecido insistia em saber de onde ela vinha, mas sempre se esquivava da pergunta. Tomei coragem para perguntar novamente - estava pronto até para um ultimato, se necessário -, mas ela tomou minha frente: - “Desde o primeiro dia que apareceu aqui eu precisava lhe dizer que te amo”. Nada explica minha surpresa, muito menos o que veio a seguir: ela se debruçou sobre mim, colocou sua mão em meu rosto, como na primeira vez que nos encontramos, e me beijou; seus lábios eram quentes e macios, seu corpo era como nuvem. Deslizei minhas mãos sobre suas costas subindo até sua nuca; abri os pequenos botões de madeira clara que fechavam o vestido; ele deslizou suave e ela ficou nua; por fim tirou minha roupa e sentou em meu colo… divino. Todo o universo estava em minhas mãos; ele expandia, comprimia, explodia, jorrava, morria e renascia, tudo na mesma proporção. Sentia meu corpo negro formigar, minhas mãos grossas de trabalhos pesados na horta pareciam algodão, meus cabelos escuros, desgrenhados se cachearam conforme ela acariciava, meus olhos castanhos lacrimejavam. Ela encostava seu nariz delicado no meu grosseiro e grande e, por fim, beijava meus lábios grossos. Os pássaros cantavam mais alto que nunca, a água brilhava como se cem sóis iluminassem, a árvore dava frutos sem parar, que caíam ao nosso lado deixando no ar seu cheiro adocicado. No final, o céu desceu e a terra subiu; o inferno era paraíso, tanto quanto o paraíso era inferno; anjos e demônios selaram paz por aquele momento. 

    Nus, corremos de volta à minha casa quando começou a escurecer. Tomamos um banho quente juntos e deitamos para dormir. Dormimos três dias seguidos, tamanha a paz que agora reinava. No terceiro dia acordei antes do sol nascer. Os quadros na parede brilhavam sob um prateado luar, mostrando fotos coloridas de momentos guardados na lembrança. Caminhei descalço no chão de madeira que rangia levemente com meu peso. A cozinha fria estava escura até que acendi o fogão. A lenha estalou, pipocou e brilhou em um fogo quente que iluminou e aqueceu o cômodo. A água ferveu em milhares de bolhas que estouravam e voltavam a ferver. O café preto fez uma fumaça espessa e perfumada que cobriu a casa inteira com seu cheiro. Levei numa bandeja o café com algumas frutas, torradas e geleias coloridas. Entrei silenciosamente no quarto pronto para surpreendê-la, mas levei um susto e a bandeja foi ao chão. O café se espalhou pela madeira, misturando-se com a geleia e sujando meus pés. Não entendia o que estava acontecendo - porque estava acontecendo - como estava acontecendo. Olhei para a cama… ela não estava lá. Corri à janela - ninguém. Entrei em cada quarto - ninguém. Nos arredores da casa - ninguém. Saí correndo pela rua, nu, em direção ao lago. Meus olhos lacrimejavam tanto que mal enxergava onde estava, mesmo o sol estando claro no céu. Passei por campos de plantas que eu não sabia quais, ouvia barulhos que não podia descrever e o vento trazia cheiros indescritíveis. No lago encontrei minha vara, a primeira, que havia deixado na manhã que a conheci. A árvore, com sua copa farta, não tinha uma fruta; abracei seu tronco, caí de joelhos e chorei - gritei, por fim, adormeci.

    Acordei pouco antes do raiar do sol. Cocei os olhos para ver melhor. Observei cada milímetro da planície - ninguém. O céu ficou laranja… segundos viraram horas e o céu foi clareando como fazia todos os dias; na planície, ninguém. O sol brilhou no céu azul; esperei ouvir algo - silêncio. Silêncio absoluto. As árvores não balançavam ao sabor do vento, o lago estava intacto, os pássaros estavam estáticos. Fiquei mais algumas horas esperando ali, mas acabei por voltar para casa. Me arrastei o caminho inteiro, não havia sabiá, flores ou ventos, somente meu corpo me arrastando. Em casa tomei um banho, limpei a bagunça e trabalhei minha horta. Fui para o quarto no começo da noite e me deitei. Não sei se dormi ou se entrei em algum transe. Passei alguns dias acordando só depois que o sol já estava alto no céu. Fazia o que fosse necessário e voltava a dormir. Os dias viraram meses, os meses anos. Finalmente resignado, acordei pela madrugada um dia e fui até o lago. O caminho de terra vermelha não havia mudado. Os campos floridos ainda estavam lá; o farfalhar dos morcegos ainda estava lá, porém, a árvore, com sua copa farta, agora era só um tronco seco morrendo lentamente. Sentei ao seu lado e esperei - esperei - esperei. Quando achei que nada aconteceria meus olhos se encheram de lágrimas: lá estava ela. Caminhava de trás das montanhas lentamente, subia no céu e sua luz descia em minha direção. O horizonte escuro tornou-se laranja e esquentava pouco a pouco a cada segundo. O céu foi ficando mais amarelado conforme ela chegava mais perto. Senti o primeiro raio de sol me tocar, acariciar, beijar - chorei. Lá estava ela num lusco-fusco de cores e emoções. Breves instantes que se tornaram horas, enquanto o dia dava seus primeiros passos. Deitei e ela me cobriu; aquela luz que irradiava dela agora se tornava uma comigo. Sorri, com lágrimas nos olhos, quando balbuciei minhas primeiras palavras em anos: - “Eu te amo”. O dia havia começado e meu corpo deitado sob a luz do sol dormia - dormia - dormia...

 


- Lopes, Carlos.

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Trecho do livro 'A boca do muro', de Bruno Honorato

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